Sábados Não Voltam

 

Este texto faz parte de As Pessoas Que Tentaram Se Amar — uma coleção de narrativas sobre conexões imperfeitas, começos inesperados e finais que nem sempre chegam a tempo.


Ele ainda deixava a luz do corredor acesa.


Não por medo do escuro.


Por hábito.


Ela odiava apagar todas as luzes. O escuro completo fazia a cabeça dela piorar. Então ele deixava a luz acesa para ela.


Mesmo depois que ela morreu.


Eles se conheceram jovens demais e quebrados demais. Ela tinha aquela tristeza bonita que fazia as pessoas quererem salvá-la. Ele confundiu isso com amor imediatamente.


No começo, funcionaram.


Ela ria das piadas ruins dele. Ele beijava suas cicatrizes como se pudesse apagar o passado.


Mas pessoas que precisam ser salvas acabam afogando quem tenta.


Ela era instável. Oscilava entre amor intenso e afastamento cruel. Num dia falava sobre casamento; no outro desaparecia sem responder mensagens. Ele aceitava tudo porque tinha medo de perdê-la.


E esse medo virou submissão.


Ela aprendeu rápido que ele suportaria qualquer coisa.


Então começou a testar limites.


Traições pequenas. Mentiras inúteis. Crueldades disfarçadas de sinceridade.


Depois pedia desculpas chorando. E ele perdoava.


Sempre.


Porque também precisava dela de um jeito humilhante.


Os sábados eram o pior.


Era quando ela costumava voltar depois das brigas. Batia na porta de madrugada, bêbada, maquiagem borrada, dizendo: — Eu não sei ficar longe de você.


E ele acreditava naquilo como um condenado acredita em religião.


Na última vez, ela chegou chorando mais do que o normal.


Disse que estava cansada. Disse que estragava tudo. Disse que talvez fosse melhor desaparecer.


Ele não levou a sério.


Já tinha ouvido aquilo antes.


Mandou ela dormir.


Na manhã seguinte, ela estava morta no banheiro.


Comprimidos. Silêncio. A luz do corredor ainda acesa.


Depois do enterro, as pessoas tentaram transformá-la numa lembrança bonita. 


Diziam que ela era intensa, livre, complicada.


Ele sabia a verdade.


Ela estava destruindo os dois havia anos.


E ele deixou.


Era isso que realmente o matava.


Não a morte dela.


Mas perceber que, no fundo, continuaria aceitando tudo se ela atravessasse a porta mais uma vez dizendo que não sabia viver sem ele.


Por isso os sábados nunca acabavam.


Porque toda semana ele esperava ouvir batidas na porta de alguém que já estava morta.



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