Antes de Saturno parte 2/2

 

Este texto faz parte de As Pessoas Que Tentaram Se Amar — uma coleção de narrativas sobre conexões imperfeitas, começos inesperados e finais que nem sempre chegam a tempo.


O vômito atinge o chão do ônibus com um som úmido demais para as seis e meia da manhã.


Algumas pessoas reclamam imediatamente. Outras apenas se afastam, cobrindo o nariz. O cobrador ergue a perna num reflexo tardio, mas mesmo assim parte do líquido respinga na barra da calça dele.


Fecha os olhos por um segundo, irritado.


Primeira viagem do dia.


E o cheiro azedo provavelmente vai ficar impregnado no ônibus até o fim do turno.


A garota continua curvada no banco, segurando a própria mochila contra o peito como se pudesse desaparecer dentro dela. O rosto está vermelho. 


Não apenas pelo enjoo.


Vergonha.


Muita vergonha.


— Desculpa — ela murmura, a voz falhando.


O cobrador suspira antes de estender a mão: — Seis e cinquenta.


Ela procura a carteira às pressas, atrapalhada, ainda trêmula. Entrega uma nota de dez sem conseguir encará-lo.


Quando o ônibus para, desce rápido demais, quase tropeçando na calçada.


Passa o restante do dia sentindo o cheiro de vômito mesmo depois de tomar banho.


Como se a vergonha impregnasse mais que qualquer outra coisa.


Nos dias seguintes, evita pegar o ônibus naquele horário. Sai mais cedo, espera outros, inventa rotas maiores. Tudo para não correr o risco de encontrar o cobrador outra vez e reconhecer naquele rosto alguém que a viu no pior momento possível.


Mas a vida tem um senso de humor cruel.


Quatro dias depois, entra num mercado perto do trabalho e vai direto para a sessão de produtos de limpeza. Fica parada diante dos amaciantes por tempo demais, analisando perfumes como se aquilo realmente importasse.


Pega uma garrafa azul.


Abre.


Aproxima do nariz.


Passos se aproximam atrás dela.


— Cheiroso?


Ela congela.


Reconhece a voz antes mesmo de virar.


O cobrador segura uma cesta vazia numa mão e um pacote de café na outra. O constrangimento sobe tão rápido que seu primeiro impulso é fingir que não o conhece.


Mas ele sorri primeiro.


Não um sorriso debochado. Só cansado.


Humano.


Ela abaixa a garrafa devagar. — Não tem cheiro de vômito.


Por um segundo ele parece tentar segurar a risada.


Não consegue.


E ela acaba rindo também, mesmo querendo morrer um pouco.


O silêncio entre os dois deixa de ser desconfortável aos poucos.


— Melhorou? — ele pergunta.


Ela ergue uma sobrancelha. — O enjoo ou a dignidade?


Aquilo faz ele rir de verdade agora.


E ela percebe, pela primeira vez, que ele tem um rosto bonito quando não está irritado às seis da manhã dentro de um ônibus lotado.


Do lado de fora, a cidade continua barulhenta, cinza e apressada.


Mas dentro do mercado, entre amaciantes baratos e cheiro artificial de lavanda, alguma coisa pequena começa.


Não amor.


Ainda não.


Só o estranho conforto de ser reconhecida por alguém justamente no momento em que parecia impossível não querer desaparecer.


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