Ninguém sabe explicar exatamente quando, mas falam dele como se fosse inevitável — como crescer, como envelhecer. Um ponto em que tudo finalmente se encaixa, em que a vida começa a fazer sentido.
Eu ainda estou esperando esse momento.
Não com esperança, mas com a insistência de quem não tem outra opção.
Quando eu era criança, imaginava uma versão de mim que saberia o que fazer, que teria alguma habilidade, alguma certeza. Alguém de quem eu me orgulharia.
Essa versão nunca chegou.
No lugar dela, existe alguém que ainda não descobriu no que é boa. Sem profissão, sem perspectiva clara. Alguém que continua na casa dos pais, sem trabalho, sem renda, tropeçando em tudo o que tenta construir.
A vida adulta, para mim, tem sido outra coisa.
Uma repetição de tarefas domésticas, o barulho de louça sendo lavada, o chão varrido mais uma vez, dias que se confundem. Presença silenciosa quando alguém precisa — cadeiras duras de hospital, corredores brancos, o tempo arrastado entre um chamado e outro. Como se meu papel fosse apenas estar ali, nunca avançar.
Há dias em que até o básico pesa.
Em que depender dos outros deixa de ser um detalhe e vira medida — como não ter dinheiro nem para comprar o próprio absorvente.
Eu li, uma vez, que a nossa versão criança sentiria orgulho de quem nos tornamos. No meu caso, acho que ela ficaria em silêncio — ou talvez triste.
Se ela me perguntasse “foi isso que a gente virou?”, eu não sei o que responderia.
Talvez nada.
O que mais assusta não é só o agora. É a ideia de que esse sentimento se estenda pelos anos, que o futuro seja apenas a continuação silenciosa desse mesmo cenário.
Envelhecer assim dá medo.
Não pelo tempo em si, mas pela ausência daquele momento que dizem chegar — o instante em que tudo finalmente começa.
Eu ainda estou esperando.
Mesmo sem saber se ele existe.

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