Este texto faz parte de As Pessoas Que Tentaram Se Amar — uma coleção de narrativas sobre conexões imperfeitas, começos inesperados e finais que nem sempre chegam a tempo.
Depois que ela foi embora, ele passou a dormir tarde.
Não porque tivesse insônia — mas porque tinha medo dos sonhos.
Toda vez que fechava os olhos, voltava para o apartamento antigo. O mofo discreto na parede da cozinha. O ventilador barulhento. As roupas dela espalhadas pela cadeira como se ainda existisse futuro suficiente para serem usadas de novo.
E, às vezes, a criança.
Correndo por um corredor que nunca existiu.
No sonho, ele nunca conseguia ver o rosto.
Só ouvia ela rir ao fundo.
Ele acordava sempre no mesmo instante: quando percebia que o apartamento estava silencioso demais.
Durante o dia, fingia que a culpa não existia. Trabalhava, respondia mensagens, bebia mais do que deveria. Mas a madrugada desmontava tudo. Porque era impossível fugir de si mesmo quando não havia barulho ao redor.
Ele ainda lembrava do começo.
Ela sentada no chão do apartamento vazio enquanto os dois decidiam onde colocariam os móveis que nunca compraram. Ela ria fácil naquela época. Tinha tinta nas mãos, sonhos nos olhos e aquela mania irritante de acreditar nas pessoas.
Principalmente nele.
Ele falava do futuro como quem inventava mundos:
— Se for menina, Aurora — ele dizia.
— E se for menino?
— Saturno.
Ela ria. Dizia que Saturno não era nome de gente.
— Então combina com a gente — ele respondia.
Ela deveria ter percebido ali.
Ele gostava mais da ideia das coisas do que das coisas reais.
Gostava da ideia de amor. Da ideia de família. Da ideia dela.
Mas amar alguém de verdade exige suportar o peso da realidade depois do encanto.
E ele não sabia.
No começo, o amor parecia bonito demais para acabar. Depois começou a apodrecer devagar — como fruta esquecida dentro de casa.
Ele odiava quando ela saía sem ele. Fazia silêncio por horas até ela pedir desculpas por coisas que nem entendia. Dizia frases pequenas, quase inocentes: — Você sabe como minha cabeça fica.
E ela começava a voltar mais cedo. A cancelar planos. A se diminuir para evitar tempestades.
Foi desaparecendo devagar.
Parou de pintar primeiro.
Depois parou de discordar.
Ele percebia. E odiava perceber.
Porque parte dele sabia exatamente o que estava fazendo.
Mas era mais fácil chamar aquilo de amor.
Quando ela descobriu a gravidez, chorou.
Ele também.
Ele a abraçou forte, falou sobre nomes, quartos, futuros. Disse que dariam um jeito. E naquela noite fizeram amor como duas pessoas tentando acreditar no próprio teatro.
Depois veio o medo.
As contas atrasadas. O apartamento pequeno. A sensação sufocante de estar preso numa vida para a qual ele não estava preparado.
Ele nunca pediu diretamente que ela interrompesse a gravidez.
Mas começou a deixar o medo escapar em frases calculadas: — Talvez seja cedo demais.
— A gente mal consegue cuidar da própria vida. — Você sabe que eu tô tentando.
Ela fingia não ouvir o verdadeiro significado daquilo.
Até o dia em que perdeu o bebê.
O hospital tinha cheiro de álcool e derrota.
Ele segurou a mão dela enquanto ela chorava.
E se odiou no instante em que sentiu alívio.
Foi pequeno. Rápido. Quase invisível.
Mas existiu.
E ela percebeu.
Depois disso, continuaram juntos apenas por covardia.
Dormiam na mesma cama como estranhos presos no mesmo naufrágio. Ainda faziam sexo às vezes, mas havia algo desesperado naquilo — como se tentassem ressuscitar um corpo já frio.
As brigas ficaram cruéis.
Ela olhava para ele com um tipo de silêncio que fazia ele se sentir monstruoso. E ele começou a odiá-la por enxergar nele algo que tentava esconder de si mesmo.
Até a última noite.
Ele gritou. Disse que estava cansado de ser culpado por tudo.
Ela começou a rir.
Não um riso feliz. Um riso quebrado.
Aquilo destruiu ele mais do que qualquer insulto.
Então ela falou: — Você me matou antes daquele bebê morrer.
Silêncio.
Ele não respondeu.
Porque os dois sabiam que havia alguma verdade ali.
Ela foi embora dois dias depois.
Levou poucas roupas, os quadros antigos e deixou o teste de gravidez dentro da gaveta do criado-mudo.
Como castigo.
Meses depois, bêbado demais para sustentar o próprio orgulho, ele mandou mensagem:
“Você também sonha comigo?”
Ela visualizou.
Não respondeu.
Naquela noite, ele sonhou com uma criança correndo por um campo enorme.
Ela aparecia ao longe, segurando a mão dela.
Os dois estavam felizes.
Sem ele.
Às vezes ele imaginava que, em algum canto do universo, existia uma versão deles que sobrevivera.
Uma versão em que o medo não estragou tudo. Em que ela não aprendeu a olhá-lo com tristeza. Em que a criança nasceu.
Mas não nesta vida.
Nesta vida, restava apenas o silêncio.

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