Este texto faz parte de As Pessoas Que Tentaram Se Amar — uma coleção de narrativas sobre conexões imperfeitas, começos inesperados e finais que nem sempre chegam a tempo.
Ele odiava quando pediam aquela música.
Mesmo assim, cantava.
Toda noite.
No mesmo bar abafado, sob luzes fracas e copos sujos, alguém inevitavelmente reconhecia os primeiros acordes e sorria: — Essa é linda.
Linda.
Ele quase ria.
As pessoas ouviam amor naquela canção porque não conheciam a verdade. Não sabiam que cada verso havia nascido de uma tentativa desesperada de manter alguém preso.
Ela costumava sentar perto do palco, antes de tudo piorar. Observava ele cantar como se enxergasse nele algo que ninguém mais via. E talvez visse mesmo. Ele tinha aquele tipo de tristeza que confunde as pessoas — parecia profundidade.
No começo, foi fácil amá-lo.
Difícil foi perceber que ele transformava amor em posse sem notar.
Ele precisava saber onde ela estava. Com quem falava. Por que demorava a responder. Por que queria ficar sozinha às vezes.
Nunca gritava.
Isso era o pior.
Manipulava em silêncio, como quem oferece culpa no lugar de carinho.
— Eu só tenho você. — Não faz isso comigo.
Tudo era “comigo”.
Aos poucos, ela começou a desaparecer dentro da relação. Parou de sair. Parou de pintar. Parou até de discordar. Era cansativo demais sustentar as próprias vontades perto de alguém que fazia qualquer distância parecer abandono.
Mas ele a amava. Ou pelo menos acreditava amar.
Escreveu a música numa madrugada depois de uma briga horrível. Ela havia dito que precisava respirar. Que estava cansada de se sentir responsável pela felicidade dele.
Então ele fez o que sempre fazia quando estava perdendo alguém: transformou dor em espetáculo.
Compôs.
Mostrou a música chorando. Cantou olhando nos olhos dela. Fez ela se sentir cruel por querer partir.
E funcionou.
Ela ficou.
Por mais um ano.
Um ano de desgaste lento.
Até a noite em que ela tentou dormir e percebeu que não lembrava mais quem era antes dele.
Isso a apavorou.
Foi embora dois dias depois, enquanto ele trabalhava. Levou poucas roupas, os quadros antigos e deixou um bilhete curto:
“Você me ama como quem aperta algo até quebrar.”
Ele leu aquilo dezenas de vezes.
Depois começou a beber.
Meses mais tarde, a música explodiu na cidade. Tocava em rádios locais, bares, aniversários, casamentos. As pessoas dedicavam aquela canção umas às outras sem imaginar que ela tinha nascido de um relacionamento sufocado.
E ele odiava o sucesso dela.
Porque quanto mais cantava, mais ela continuava viva.
Ele dizia para todos que ainda esperava sua volta.
Mentia.
No fundo, sabia que ela nunca voltaria. Ela não tinha ido embora por falta de amor. Tinha ido embora para sobreviver.
Mas o orgulho dele não permitia aceitar isso.
Então continuava cantando a história como se fosse vítima. Como se tivesse sido abandonado injustamente. Como se não tivesse passado anos transformando culpa em prova de amor.
Numa noite chuvosa, já bêbado demais para terminar o show direito, ele viu uma mulher parada perto da porta.
Por um segundo, o coração disparou.
Ela.
Mais magra. Mais velha. Mais distante.
Ela não sorriu.
Esperou a música acabar.
— Você ainda canta isso? — perguntou.
Ele tentou responder, mas ela continuou:
— Você sabe qual é a pior parte?
Silêncio.
— Tem gente que escuta essa música e acha bonito o jeito que você me amava.
Aquilo atravessou ele mais do que qualquer grito.
Ela olhou ao redor do bar, depois para o palco.
— Você nunca percebeu que eu fui embora porque estava desaparecendo.
E então saiu.
Dessa vez, ele não a seguiu.
Ficou parado segurando o violão enquanto o bar inteiro permanecia em silêncio.
Porque pela primeira vez, alguém tinha arrancado o romance da história e deixado apenas o que ela realmente era:
Uma canção escrita por um homem incapaz de amar sem destruir.

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