O Tempo Não Parou Pra Nós

 

Este texto faz parte de As Pessoas Que Tentaram Se Amar — uma coleção de narrativas sobre conexões imperfeitas, começos inesperados e finais que nem sempre chegam a tempo.



Se o tempo pudesse amar alguém, ele teria parado pra nós.


Mas não parou.


Continuou seguindo indiferente enquanto destruía tudo devagar.


Levou primeiro as pequenas coisas. As mensagens longas de madrugada. O costume de dormir abraçados. As risadas que surgiam do nada no meio de conversas sem importância. 

Depois levou o toque, a paciência, a vontade de tentar outra vez.


E nós deixamos.


Talvez porque ninguém perceba o instante exato em que o amor começa a morrer. Ele não acaba de uma vez. Vai apodrecendo em silêncio dentro das rotinas, dos orgulhos, das palavras engolidas para evitar discussões que inevitavelmente aconteceriam depois.


No começo, eu acreditava que o tempo fortaleceria o que sentíamos.


Depois entendi que o tempo apenas revela aquilo que as pessoas realmente são quando o encanto termina.


Você começou a me olhar como quem já estava indo embora antes mesmo da despedida. E eu comecei a amar você com o desespero de quem percebe a distância aumentando e tenta segurá-la com as próprias mãos.


Foi assim que nos destruímos.


Não em grandes tragédias.


Mas em pequenas crueldades repetidas até não sobrar mais nada saudável entre nós.


Ainda penso às vezes naquela versão antiga de nós dois. A que ria fácil. A que fazia planos olhando o teto escuro do quarto como se o futuro fosse um lugar garantido. Tenho vontade de avisar aquelas pessoas que elas não sobreviveriam ao que estavam se tornando.


Mas o pior é saber que, mesmo podendo voltar, talvez repetíssemos tudo outra vez.


Porque algumas pessoas não se perdem por falta de amor.


Se perdem porque amor sozinho nunca foi suficiente.


E talvez seja isso que realmente doa: entender que existiu um tempo em que fomos felizes sem perceber que já estávamos acabando.


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