Este texto faz parte de As Pessoas Que Tentaram Se Amar — uma coleção de narrativas sobre conexões imperfeitas, começos inesperados e finais que nem sempre chegam a tempo.
Ela dizia que o odiava.
Repetia isso para as amigas, para si mesma, para o homem novo que tentava amá-la com cuidado. Dizia como quem tenta transformar mentira em verdade pela insistência.
Mas a noite sempre destruía tudo.
Porque existem pessoas que saem da nossa vida
sem realmente ir embora.
Durante o dia, ela conseguia fingir. Sorria nas fotografias, respondia mensagens, aprendia os horários e os gostos do outro homem — o homem calmo, gentil, emocionalmente estável. O tipo de amor que deveria fazê-la feliz.
E talvez fizesse.
Só não fazia esquecer.
Às vezes, enquanto o novo homem falava sobre coisas simples, ela se pegava lembrando do antigo. Não das brigas horríveis. Nem das ausências. Lembrava da intensidade. Do jeito como ele a olhava como se tivesse fome dela. Do ciúme sufocante que, naquela época, confundia com paixão.
Ele a consumia.
E isso deixou marcas.
No começo do relacionamento antigo, ela achava bonito ser desejada daquela forma. Ele queria saber onde ela estava, com quem falava, por que demorava a responder. Fazia cenas pequenas, dramatizava silêncios, dizia sentir saudade enquanto ela ainda estava presente.
Ela chamava aquilo de amor porque ainda era jovem demais para entender que obsessão também sabe parecer carinho no começo.
Com o tempo, começou a desaparecer dentro da relação. Mas toda vez que tentava ir embora, ele sabia exatamente como trazê-la de volta.
Não com pedidos.
Com intensidade.
Beijos desesperados. Promessas impossíveis. A sensação viciante de ser necessária para alguém.
E ela voltava.
Até o dia em que não suportou mais.
O término foi feio. Daqueles em que ninguém mantém dignidade suficiente para sair inocente. Ela disse coisas cruéis. Ele também. Choraram. Se humilharam. Se machucaram até o amor parecer algo podre demais para continuar vivo.
Depois acabou.
Ou pelo menos deveria ter acabado.
Meses mais tarde, ela conheceu o outro homem. E pela primeira vez experimentou uma relação sem gritos, sem medo, sem aquela necessidade constante de sobreviver emocionalmente.
Era bonito.
Mas quieto demais.
Numa madrugada, enquanto o novo homem dormia ao seu lado, ela percebeu algo terrível: sentia falta do caos.
Ficou olhando o teto escuro do quarto até ouvir a respiração calma ao lado dela começar a incomodá-la. Porque paz parece estranha para quem passou tempo demais confundindo sofrimento com amor.
Então o celular vibrou.
Uma única mensagem.
“Eu sei que ainda pensa em mim quando a noite chega.”
Ela deveria ignorar.
Mas ficou encarando a tela com o coração acelerado, odiando o fato de que ele tinha razão.
Porque tinha.
Às vezes, enquanto era beijada pelo outro homem, lembrava das mãos antigas. Do perfume antigo. Da versão dela que existia apenas dentro daquela relação destrutiva.
E isso a enchia de vergonha.
Não porque ainda o amasse.
Mas porque alguma parte dela continuava pertencendo àquilo que a machucou.
Ela apagou a mensagem sem responder.
Depois se virou para o homem adormecido ao lado dela e tentou tocá-lo com carinho suficiente para compensar a culpa.
Mas havia fantasmas demais naquela cama.
Na manhã seguinte, percebeu que o pior tipo de amor não é aquele que termina.
É o que continua vivendo dentro da gente depois que deveria estar morto.

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