Gostinho de Limão

 

Este texto faz parte de As Pessoas Que Tentaram Se Amar — uma coleção de narrativas sobre conexões imperfeitas, começos inesperados e finais que nem sempre chegam a tempo.


Ele tinha acabado de se mudar quando começou a caminhar pelas ruas do bairro logo antes do amanhecer.


Gostava daquele horário em que as ruas ainda estavam vazias e ninguém parecia com pressa.


Na terceira manhã, viu a mulher.


Ela varria a calçada com movimentos irritados, como se estivesse brigando com o chão. Usava um short velho, chinelos gastos e uma expressão de quem já acordara cansada da existência.


Mesmo assim, ele sorriu: — Bom dia.


Ela parou de varrer. Ergueu os olhos. — O que tem de bom?


A resposta atravessou a rua vazia, sem educação alguma.


E ele riu.


Riu porque parecia sincero demais para ser encenação.


Abriu os braços dramaticamente: — A vida… a vida!


Ela revirou os olhos e voltou a varrer.


Ele diminuiu o passo. — Acordou com o pé esquerdo ou é sempre azeda assim?


Ela passou a língua no dorso da mão como quem realmente prova alguma coisa invisível.


Fez uma careta. — Gostinho de limão.


Dessa vez ele jogou a cabeça para trás de tanto rir.


Ela entrou em casa antes que ele pudesse responder qualquer coisa.


Nos dias seguintes, aquilo virou hábito.


Ele passava cedo. Ela estava varrendo a calçada. Ele dizia “bom dia”. Ela reclamava da vida como se fosse obrigação.


E, estranhamente, os dois começaram a esperar por aquilo.


Numa noite abafada de quinta-feira, ele saiu para caminhar. O cachorro puxava a guia sem direção enquanto ele observava as luzes acesas das casas tentando imaginar as vidas escondidas atrás das janelas.


Então a viu outra vez.


Estava de costas para a rua, tentando abrir o portão enquanto equilibrava duas sacolas pesadas nos braços.


Ele desacelerou imediatamente. — Boa noite, azeda.


Sem virar, ela respondeu: — O que tem de boa?


Ele sorriu. — A vida—


Ela finalmente olhou para trás. — Blá blá blá—


Os olhos dela se arregalaram. — Tu tem um dálmata?


Pela primeira vez, parecia genuinamente feliz.


Ele assentiu. — Tenho.


— Agora só faltam cem.


Os dois riram.


— Por causa do desenho eu sempre quis um dálmata. Ele aceita carinho.


— Tenho medo. Admirar de longe é suficiente.


— Ele não morde.


Ela soltou uma risada curta. — Todo dono de cachorro fala isso antes da tragédia. Qual o nome?


— Nino.


Ela abaixou um pouco o corpo, mas sem coragem de tocar. — Tchau, Nino. Bom passeio.


Subiu o degrau e entrou antes que o silêncio entre eles começasse a parecer alguma coisa maior.


Depois disso, ele começou a sair à noite com mais frequência.


E ela começou a esperar no portão sem admitir nem para si mesma.


Numa dessas noites, ele a encontrou parada no degrau de casa, braços cruzados, como se estivesse apenas tomando ar.


Ela sorriu.


Os olhos dela quase desapareciam quando sorria daquele jeito.


Ela se abaixou. — Oi, Nino.


O cachorro latiu.


Ele parou diante do portão. O silêncio entre os dois já não era desconfortável havia algum tempo.


Então perguntou: — Vamos sair qualquer dia?


Ela se endireitou devagar. O sorriso diminuiu só um pouco. — A gente não tem nada a ver.


— E como chegou a essa conclusão?


Antes que ela respondesse, um gato gordo branco e amarelo atravessou o portão e se esfregou nas pernas dela.


Ela abaixou os olhos, rindo.


Depois olhou de volta para ele. — Eu sou azeda, esqueceu?


Ele deu de ombros. — Eu gosto de limão… e não tenho medo de gato.


Ela tentou segurar a risada.


Não conseguiu.


E naquela rua silenciosa demais para duas pessoas quase desconhecidas, alguma coisa começou.


Pequena. Ridícula. Quase invisível.


Mas suficiente para que os dois demorassem mais do que deveriam para dormir naquela noite.


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