Este texto faz parte da coletânea Entre Máscaras, que reúne histórias e reflexões sobre as hipocrisias e contradições de uma mulher ao longo de sua vida. Os textos exploram amor, maternidade, relações sociais, escolhas pessoais e autoengano, sempre com uma perspectiva introspectiva e reflexiva.
Ela abençoou a criança com as palavras mais ásperas que encontrou: “Deus te abençoe, cabeça de boi.”
Foi dito alto, de frente para a sobrinha que estendeu a mãozinha pequena.
Por trás, quando as portas se fecharam, virou-se a língua contra outra: a neta não sabia quem era o pai do filho. Palavras que soaram como sentença, jogadas como pedra num telhado já torto. Foi preciso só ouvir o rumor para que ela proclamasse culpa onde havia dúvida, e vergonha onde havia apenas vida.
Quando veio a descoberta do outro namoro — o nome do parceiro, a conexão exata — ela levantou a voz numa contagem de limites: “Já bastava o marido da filha, agora esse da mesma família.”
A razão da censura veio pronta e exata: o parceiro da neta é sobrinho do marido da filha. Era um parentesco, uma linha de parentes ligados. Para ela, aquilo bastou como denúncia, como prova de transgressão.
E, no fim, saiu-lhe da boca a mesma reclamação que usava como manto: “Ninguém gosta de mim.”
Dito assim, curto, como quem espera compaixão que ela mesma teria negado a outros.

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