Sombras de 35 anos – Entre Máscaras

Este texto faz parte da coletânea Entre Máscaras, que reúne histórias e reflexões sobre as hipocrisias e contradições de uma mulher ao longo de sua vida. Os textos exploram amor, maternidade, relações sociais, escolhas pessoais e autoengano, sempre com uma perspectiva introspectiva e reflexiva.





Ela entrou na vida dele há trinta e cinco anos.

Nunca houve promessa, nunca houve fidelidade.

Ele tinha outra. Sempre teve. Outra casa, outra cama, outro riso.

Ela sabia. Sempre soube.

Falava com vizinhos, com familiares: queria que ele a deixasse em paz.

Palavras lançadas ao vento, nunca a ele.

Nunca o mandou embora.

Antes de se aposentar, declarava que quando isso acontecesse, o deixaria.

Se aposentou. E não o deixou.

Os anos se repetem como fantasmas e ela permaneceu.

Ele trouxe uma terceira. Uma terceira mulher.

A instalou na casa onde antes eles haviam morado juntos.

Ela manteve seu discurso. A voz firme, o silêncio mais firme ainda.

Um dia, alguém perguntou por ela.

Ele respondeu: “Tomamos café juntos”.

Como se fosse um evento. Como se ela estivesse lá.

Ela não estava. Nunca esteve.

Ela aprendeu a ser sombra.

Sombra dele. Sombra daquilo que poderiam ter sido.

Sombra daquilo que ela mesma poderia ter sido.

E ficou.

No silêncio devastador, na invisibilidade que pesa mais que qualquer grito.

Talvez ela não o amasse mais.

Talvez só amasse a si mesma… ou aquilo que se tornou por nunca ter ido embora.

E ficou.

Esperando algo que nunca viria.



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