Onde Eu Estava?

 

Este texto faz parte de As Pessoas Que Tentaram Se Amar — uma coleção de narrativas sobre conexões imperfeitas, começos inesperados e finais que nem sempre chegam a tempo.



Eu deveria ter terminado quando você disse:


“Se quiser terminar…”


Ou quando você disse que não deveria ter me deixado viajar.


Quando começou a implicar com minhas amigas.


Eu deveria ter ido embora quando você gritou comigo.


Quando ignorou minha presença na frente dos seus amigos.


Quando mandou eu descer do carro porque eu não quis transar.


Talvez eu devesse ter entendido ali.


Ou antes.


Quando você ficou com raiva da própria mãe porque ela não colocou sua comida.


Ou quando “brincou” sobre o tamanho da minha barriga e riu enquanto eu tentava rir também para não parecer sensível demais.


Ou quando se endividou comprando presente para outra pessoa enquanto dizia não ter dinheiro para me dar nada.


Hoje percebo que a pior parte não foi o jeito que você me tratou.


Foi o jeito que eu me abandonei para continuar ficando.


Porque eu nem estava apaixonada.


E isso é o que mais me destrói.


Passei tanto tempo querendo dizer que tinha alguém que aceitei me tornar ninguém dentro da relação.


Só para não voltar para casa sentindo o peso de não ser escolhida por ninguém.


Você foi me diminuindo aos poucos.


E eu fui ajudando.


Era ausência de mim.


E ainda assim, no final, foi você quem terminou.


Às vezes penso nisso com uma vergonha silenciosa: eu teria continuado.


Mesmo triste. Mesmo humilhada. Mesmo desaparecendo.


Então a pergunta que realmente me persegue não é:


“Por que você me tratou assim?”


É:


“Onde eu estava enquanto deixava tudo isso acontecer?”


Meus olhos nunca estavam em mim.


Meu cuidado nunca estava em mim.


Meu amor nunca estava em mim.


Espero que algum dia estejam.



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